Os filtros do Facebook

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Os filtros do Facebook

A grosso modo, a tecnologia deve ajudar o homem a viver melhor, executar tarefas mais rapidamente, se integrar mais com seus semelhantes, ter mais qualidade de vida e a compreender melhor o mundo em que vive. No entanto, por mais que algoritmos e protocolos sejam criados, ela ainda está longe de uma característica estritamente humana: a sensibilidade para discernimento. E é justamente ela que desempenha papel fundamental em questões delicadas, levantando muitas outras ao seu redor. Até que ponto é possível confiar apenas à tecnologia a escolha de critérios sobre determinados assuntos? Recentemente um episódio envolvendo a maior rede social do mundo, com nada menos que 1 bilhão de usuários diários, levantou a bola sobre os limites da seleção de conteúdo. O evento recém ocorrido tem tudo para se tornar um marco na discussão que ainda vai levantar muita poeira.

Filtro do Facebook remove foto icônica da guerra do Vietnã

No último dia 9 de setembro o Facebook tirou do ar uma foto histórica da guerra do Vietnã, na qual a menina Kim Phuc corre nua aos prantos fugindo com outras crianças de um ataque com o agente inflamável Napalm. Postada pelo escritor norueguês Tom Egeland como parte do artigo “O Terror da Guerra”, publicado juntamente com outras sete imagens no maior jornal da Noruega, o “Aftenposten”, a foto icônica feita por Nick Ut já rodou o mundo algumas vezes ao longo dos anos, mas não passou pelo crivo do site. O algoritmo a entendeu apenas como uma fotografia de uma criança nua, o que fere os princípios da rede social, sem conseguir perceber o valor histórico da imagem, vencedora de um Prêmio Pulitzer.

Como resultado, a imagem foi retirada antes mesmo da resposta a um e-mail avisando sobre a impropriedade da foto, mas Egeland voltou a publicá-la, desta vez acompanhada por um artigo contra a atitude do site – e foi suspenso da rede. Em protesto vários políticos noruegueses, entre eles a primeira-dama, publicaram a fotografia – e todos tiveram a postagem apagada. A dimensão do incidente fez com que o Facebook voltasse atrás e republicasse a foto, enviando ainda uma carta de desculpas da diretora de operações do Facebook, Sheryl Sandberg, à primeira ministra norueguesa, Erna Solberg. “Mesmo com padrões claros, analisar milhões de posts individualmente todas as semanas é desafiador”, diz Sheryl na carta à primeira-ministra.

Até que ponto a liberdade de expressão deve ser determinada por um algoritmo?

O ocorrido levanta diversas questões sobre a restrição da liberdade de expressão, os limites na seleção dos conteúdos e a própria dificuldade em controlar dados. O Facebook afirma que por conta do status icônico e da importância histórica decidiu restaurar a imagem, mas a questão é que o controle do que pode ou não ser publicado está, em última instância, a cargo de algoritmos – que precisam de padronização, não compreendem conceitos culturais e dependem da visão de mundo de quem os programa.

Sim, e o desafio é muito maior do que se imagina a princípio. Se por um lado o acontecido mostra que o filtro funciona sem discriminação, ou seja, para todos os usuários, por outro ele não pode ser absoluto, porque fere o direito à liberdade de expressão. E este é um problema que cerca todo o meio digital, ganhando destaque no caso pelas próprias dimensões do Facebook, inserido em contextos culturais totalmente diferentes ao redor do mundo.

Como plataforma privada, o Facebook tem o direito de definir as regras do que pode ou não ser publicado e, apesar da repercussão, esta está longe de ter sido a primeira vez que o site remove imagens e posts identificados como proibidos pelos seus algoritmos. Um estúdio de tatuagem, por exemplo, já teve removida a foto do colo de uma cliente que havia feito dupla mastectomia e feito uma tatuagem sobre as cicatrizes. Por outra vez, o fotógrafo Wyatt Neumann teve censuradas as fotos de sua filha na qual a menina aparecia com pouca ou nenhuma roupa.

O Facebook afirma que procura sempre melhorar suas políticas de forma a assegurar que elas promovam a liberdade de expressão e mantenham a comunidade segura. Mas a verdade é que se a tecnologia não é perfeita, o homem por trás dela é muito menos.

Assim, o cuidado com o que você escolhe compartilhar nos meios digitais em seu nome ou da sua empresa, deve ser maior. Tudo deve ser pensados de forma ética e que corresponda verdadeiramente aos seus valores e conceitos. Lembre-se que apesar dos algoritmos, depois de publicar conteúdos online será muito difícil fazê-los desaparecer da rede.